Quarta-feira, Junho 10, 2009

e la nave va....


É um barco gigante, enorme e incansável, que viaja pelos oceanos todos, os milhares deles, como uma voadeira num rio sem fim.

E lá vai o barco abarrotado de amores,
de histórias, de quereres tão imensos,
de vida escrita em água e estrelas...
(testemunhas únicas da existência deste meu navio).

La alva nave de mim, viajando em silêncio,
buscando sempre o que não há como num conto de fadas, ou num navio fantasma.
Os quereres e amores são carregados de magia, de alegria e de um silêncio mortal...pesado...cansado...
Cansado de busca, meu barco? Cansado de amar em vão?
O barco não cansa...
(é o peito que cansa).
Cansa saber tanto e não pronunciar. Cansa amar tanto, amor de tanta paz, tanta paciência, tanta generosidade, e deixar que o amor se vá...Vai, meu amor...vai! Vai viver o que te espera que eu te espero pra sempre, na nave que vai também...
E vai desenhando no mar, como a voadeira no rio, como os quereres exaustos,
pesados,
calados...

E lá vai o barco para um lado e o amor para o outro caminho, ali do lado, onde eu posso ver, onde eu posso sorrir ao ver que o amor se faz...chorar ao ver que a dor lhe corta o peito...
e então meu barco navega em lágrimas que nem são minhas lágrimas...são o sal dos seus olhos que eu transformo e bebo pra que não veja que eu as percebi.

Ai ai...nem tanto assim...nem tanto...Mas há sim um barco abarrotado de amores, amores tantos, dos oceanos todos das minhas lágrimas...

...e você ali, no caminho ao lado.
(todo errado...) nem sabe de mim.


escrito em agosto 2006

Terça-feira, Junho 02, 2009

Sinto muito

Algumas notícias chegam e pegam a gente de surpresa. Geralmente a morte, nossa única certeza, causa um desconforto grande, seja quem for que tenha partido.
Ouvi da minha filha ontem "todo mundo vira deus quando morre". Nossa...ela só tem 15 anos e sabe que o ser humano tem falhas graves como essa.
Quantas vezes você já viu alguém que nem falava com o morto dizer: "Era um grande homem".
Eu não estou aqui para julgar os mortos, mas vou te dizer que assim como não consigo idolatrar nem meus próprios ídolos, não consigo endeusar alguém só porque morreu.

Eu tinha problemas com o Leminsky. Me processa! Tinha e sei de mais gente que tinha, e apesar de saber, reconhecer e concordar que ele era um poeta incrível, sua morte não fez com que eu passasse a gostar dele. Continuo achando tudo o que achava em vida, e não me acho nadinha importante por ter trabalhado com ele, até porque não fiz um único filme dele do qual me orgulhe. Penso dele o que penso de vários artistas brilhantes ainda vivos que trabalharam comigo. (um desodorante não mudaria em nada a arte deles!)

Mas então recebi a notícia da morte de uma das três únicas pessoas que eu odiei na vida. Uma das três únicas pessoas que realmente me fizeram mal e atrasaram o curso das coisas que estavam por vir para mim. Aí o que que diz? "Sinto muito"? Ai desculpa, não consigo...
Eu sinto muito pelos que podem ter sofrido com a partida dela. Eu sinto muito pela vida perdida. Mas ai...acho que só. Isso faz de mim uma pessoa má ou uma pessoa honesta?
Eu vivi os últimos 27 anos sem essa pessoa e ela não me fez falta, muito pelo contrário. Todas as vezes que me lembrei dela foi para contar do mal que ela me fez. Mas a minha formação de boazinha ridícula fez com que eu me sentisse um pouco culpada por "não sentir muito" a morte dela. Não é um alívio...não é um "graças a deus"...não é um "bem feito"...é só um "ah...é mesmo?".

Essa sensação esquisita de não sentir me fez pensar no dia que eu receber a notícia da morte dos outros dois. Hm...é mesmo? Pois é. Ah eu tenho certeza que todos os fofoqueiros de plantão vão correr pra me contar, loucos para ver a minha reação! Preciso urgentemente ensaiar uma cara para fazer, porque eu sei que simplesmente não vou ter reação alguma, afinal, já faz tanto tempo que eles morreram pra mim...já faz séculos que estão enterrados! Estranha seria a minha reação à notícia de que eles ainda estão vivos, zumbizando por aí...aí sim.
Eu sou um amor, sabe, mas tem uma coisa que pouca gente sabe sobre o meu lado negro: se você morrer pra mim, eu te enterro. E nunca vou voltar para colocar flores no seu túmulo.
Sinto muito.



*mas eu sinto muito pelas vidas perdidas no vôo da Air France, e boboca que sou, ainda acho que algumas pessoas podem ter se salvado de alguma forma...

Domingo, Maio 17, 2009

Foram dias estranhos...


Teoricamente, eu parei tudo para escrever.
Teoricamente. Porque não foi o que aconteceu. Eu nunca imaginei que fazer uma festa de 15 anos desse tanto trabalho. Ou ao menos não imaginei que fazer a festa de 15 anos da filha de um diretor desse tanto trabalho.
Complicado. A coisa é: todo mundo espera muito de nós. Não sei porque. Não nos casamos numa grande festa (muito pelo contrário), não moramos numa mansão decorada por designers, não temos obras de arte, não temos tapetes incríveis e jóias, eu não uso Chanel e Prada, não estamos nas colunas sociais, não damos entrevistas para os jornais, não somos pessoas públicas, nunca mostramos um gosto refinado. Ao contrário, passamos a vida bem low profile, não damos festas, adoramos junky food, nossos carros são velhos.
Ok, mas parece que nada disso fala mais alto do que nosso nível de exigência no que diz respeito a trabalho, e é aí que a expectativa dos outros vai às alturas: "Imagina a festa da Natasha..."
É...e não foi exatamente fácil fazer com que tudo estivesse perfeito. Vou confessar que o trabalho mais fácil foi o meu, até porque a pessoa menos exigente nessa casa sou eu.
As pessoas que nos cercam trabalharam demais, e a grande maioria delas fez isso como um presente para nós. Isso, senhoras e senhores, não tem preço. Vou ficar em dívida para sempre. São todas pessoas ocupadérrimas, com trabalhos sérios, que nos deram de presente seu tempo, seu cérebro, seu gosto e sua competência. Larissa Cambauva, Kátia Gimenez, Renato S. , Judith Belfer, Diogo Gameiro (ok...esse é irmão, mas conta!) pararam tudo o que estavam fazendo para realizar o sonho de pricesinha da Natasha. E foram muito além. O que não tira absolutamente o mérito das pessoas que ganharam para isso:Raquel Poli incansável, Dani e sua paciência infinita, Carol Garofani com seu gosto impecável, Dee, Marquinhos, Monica Darjcz, e aqueles que eu certamente vou esquecer, porque sou péssima!
A festa foi linda e perfeita, com direito a fatos inpensáveis, inimagináveis...ou quase isso, já que eu, como mãe sonhadora, pedi todos os dias para o universo dar um jeito de providenciar aquela valsa que aconteceu de última hora, só para ver o sorriso da minha filha brilhar mais forte.

E no dia seguinte tudo ficou estranho...Meio como se fosse um castigo por tudo ter dado tão certo. A consequência do excesso de felicidade latejante, transbordante, e o exibir uma família feliz, amigos felizes, crianças felizes, e uma filha linda, foi descer até o submundo dos ratos corruptos e ter que sentir seu cheiro nojento. Tá...exagero...eu não acredito em castigo! Mas o cheiro dos ratos é nojento. Por 48 horas vivi um pesadelo que parecia novela das oito, com vilões canastrões com roupas questionáveis, diálogos mal escritos, cenário brega, mentiras, os mocinhos perdendo...Péssimo!
Mas sabe que já vivemos isso outras vezes. Não nesse nível "novela ruim", mas muito já tivemos que encarar a Nazaré! De tempos em tempos somos postos à prova, e sempre, sem excessão, no final da novela estamos mais fortes e mais unidos...Dane-se a perda...eu sei quem é mais feliz.

O resuldado disso tudo foi: nenhuma palavra escrita. Total BLANK no cérebro. Vou ter que reler tudo o que escrevi para poder retomar a história, mas juntei grande parte da minha família dentro da nossa casa e isso é mais importante que todo o resto. Eu aproveitei pouco, é verdade, mas fui meio que espectadora da união de todos. Tinha gente por todo lado, tomando conta da casa, comendo, rindo, conversando...e isso me faz feliz.

Aos poucos, agora, vou reorganizando a vida, voltando a escrever, voltando a postar. Ainda tenho toneladas para fazer antes de dar esta festa por encerrada. Só as minhas olheiras saíram do caminho...o resto ainda está por aí.

Obrigada pela paciência.
Espero ver todo mundo aqui nos comments outra vez.

Beijos muitos

Mg

Terça-feira, Abril 21, 2009

Que desculpas eu tenho?

Faz semanas que eu não posto nada. Semanas de silêncio profundo neste lugar, a não ser que você entre para ver meus updates no Twitter (ali embaixo, à direita), que é a única coisa que tem mudado por aqui.
Então...lá vão todas as minhas desculpas para tal abandono, sendo elas horrivelmente esfarrapadas ou não. There you go:

. Tenho um livro e um projeto que precisam de atenção e levam minha cabeça pra outro mundo que não este aqui.
. Estou organizando um "evento" ao mesmo tempo, que além de me comer (devorar na verdade) todos os minutos do dia, me enche o saquinho com atividades que eu sempre considerei "menos nobres" e me estressa 24 horas por dia.
. Hóspedes.
. Twitter (?)

Se faz algum sentido, saibam não estou conseguindo treinar, escrever ou dormir. A coisa ta preta, senhoras e senhores. Então, tenham paciência.
De qualquer forma, a boa notícia é que as minhas experiências aqui, com Jack e Monica e mais algumas outras, estão se transformando numa história que parece que ta ficando legal.

Se vocês souberem esperar...
Please?

Beijos muitos.

Mg

Sábado, Março 21, 2009

Jack & Mônica - telefone II


Metade do dia passou sem que eu tivesse coragem de pegar o telefone enquanto ele ficava lá, sendo ele mesmo. De hora em hora apitava para lembrar que existia, sempre piscando aquela luzinha verde, como se risse da minha cara. “Estou aqui! Estou aqui!”, Ah...que irritante! Se ninguém ainda havia percebido, eu não ia fazer o papel ridículo de discar aquele número. Como era mesmo? 310-829.2435!
Mas, eu sou teimosa, não idiota. Peguei uma dose extra-grande de café puro, forte e sem açúcar e fui para o computador. Palavra mágica: Google. Como faz para descobrir de onde é um prefixo de telefone? Digitei 310. Pareceu um pouco estúpido a princípio.

“www.310.com” - uma loja virtual de artigos esportivos, site under construction.
“310.org” , um site de música, crítica de CDs e animações shockwave.
“310 - North American telephone area codes 310 and 424 are West Los Angeles and South Bay Area of Los Angeles County ”.
Ha! Santa Wikipedia! Lá fui eu.

Mega aula de “DDD”. Até mapinha tem no site, e todas as explicações de mudanças e substituições de código de área e seus motivos incompreensíveis. Há quem não saiba que Los Angeles não é exatamente uma cidade...é um aglomerado delas; e os lugares que a gente acha que são bairros, são na verdade cidades. É por isso que cada uma tem seu código de área. É como se precisasse de um DDD novo para cada bairro de São Paulo.
Mas o que interessava realmente estava ali na próxima página, na lista de regiões por código de área: “310: Santa Monica, Malibu, Torrance, Beverly Hills, Catalina Island;” em resumo, se você mora bem e é cool, você ganha, no juízo final, um telefone que começa com 310.

Então meu fantasma de olhos azuis era cool e tinha dinheiro bastante para morar bem. Ou era o jardineiro da casa de alguém com os requisitos básicos de uma pessoa 310, o que já o faria mais rico do que eu. Mais rico e mais pão-duro, já que fica pedindo para EU ligar. Então, eu...euzinha, aqui no hemisfério sul, vou discar um número internacional e falar em inglês com o jardineiro de algum ator gostosão. “Oi, ta sem crédito?...me dá o número do seu patrão.”

Ah...como eu queria que por dentro eu estivesse sendo tão espirituosa. A verdade é que aquele, como os outros sonhos, tirava a minha paz e todo o meu senso de realidade. Minha verdadeira vontade, às vezes, era bater na porta de uma clínica psiquiátrica e pedir arrego: “Me leva, moça...me amarra que eu preciso!”

A casa me sufocava com a sensação de estar deixando de fazer alguma coisa. Tudo estava feito, e não havia o que me fizesse discar aquele número. Peguei o carro e saí. Tinha uma feirinha de antiguidades e artesanato no parque ali perto de casa, então achei que não precisava ir muito longe para me distrair. O lugar estava cheio de gente bonita e crianças alegres. Havia música no coreto, barracas de comida, grandes áreas verdes para descansar e uma apresentação de dança na pequena ilha, no meio do lago. Divertido. Comprei um pastel - daqueles que a gente não conta para ninguém que gosta - e fui sentar na beira do lago. Assim que sentei, um homem de chapéu com um realejo veio chegando para o meu lado.

“Vamos ver sua sorte, senhorita?”
“Vamos”,
eu respondi sabendo que ultimamente a sorte havia me deixado. Seria engraçado ver a cara dele quando descobrisse que todos os bilhetinhos tirados para mim estariam em branco. Ele se assustaria achando que era algo sobrenatural, mas mal sabe ele que “sobrenatural” seria se houvesse alguma sorte reservada para mim.

Ele ignorou meu olhar descrente, e começou a rodar a pequena manivela que tocava uma canção que eu não identifiquei. Enquanto isso, um mico escravizado assustador abria a gaveta da caixinha e escolhia um papelzinho azul para mim. O mico esticou o mini-braço com a mini-mão que parecia a de um humano que caiu nas garras de uma tribo encolhedora de cabeças, e tentou me entregar o papel. Eu não teria coragem de pegar nada que viesse daquela pequena aberração. Olhei para o homem num pedido de socorro, mas descobri que ele não era aberração menor. Na verdade, homem e mico eram um par perfeito, talvez vindos do mesmo DNA. O mico era o “Mini Me” do realejo. O homem balançou a cabeça revirando os olhos, mas resolveu me salvar. Pegou o papelzinho azul da mão de seu mascote-xerocado e me entregou. Sem olhar para o papel, eu dei uma nota de cinco para ele, que agradeceu e foi embora. Enquanto ele andava, o mico, em suas costas, olhava para mim e parecia rir, o mini-monstro.
Assim que me senti numa distância segura, olhei o papel.

“O universo aponta os caminhos do destino. O homem inteligente os segue.”

Não! Eu sabia, droga! Eu sabia que qualquer que fosse o oráculo ridículo que eu me permitisse consultar, diria a mesma coisa. Nem um biscoitinho da sorte diria nada vago e relaxante naquele dia estúpido.
Levantei do chão de mal humor, amassei o papelzinho do monstro e fui ver outra coisa. Quem sabe gastar dinheiro em objetos desnecessários me distraísse da idéia de seguir os avisos do destino. Grande tapeadora de oráculos!

Saí olhando as barracas sem uma ordem coerente, até que uma me chamou mais atenção. Eram obras feitas de conchas - uma mais brega do que a outra -, quase todas marinas com a presença de sereias. Mas o mais interessante era a artista que as confeccionava: uma velhinha de cabeça muito branca e bochechas coradas, com delineador azul claro combinando com os olhos azuis, toda vestida de turquesa. Ela própria era a peça mais kitch da barraca. Ela sorriu faceira. Sua voz era jovial para a idade, e a alegria que vinha dela, mal cabia no parque. Perguntou se eu procurava por alguma coisa especial. Eu disse que estava apenas olhando, e ela sorriu um sorriso inesperado, mostrando dentes perfeitos e muito brancos, que definitivamente não condiziam com a idade dela. Eu franzi um pouco a testa, estranhando, e ela reparou. Colando pequenas conchas em mais um quadro de sereia ela disse:

“Às vezes, as escolhas têm um preço.”
“Do que a senhora está falando?”
“Da estranheza nos seus olhos.”

Eu fiquei sem jeito.
“Desculpa...é que é difícil definir a sua idade. Não que eu precise, mas é...não sei. Desculpa.”

“Está tudo bem. Eu sei. Todo mundo estranha, mas nem todo mundo percebe exatamente o que é. Parece que você é mais sensível.”
“Sou?”

“É...eu estou vendo nos seus olhos. Começa assim, e depois são os cabelos...depois a postura...mais tarde...”

E ela mostrou a si mesma, como se exibisse uma obra de arte.
O que ela queria dizer? Que eu seria mais tarde como ela? Por que?

“Não estou entendendo...”

“Eu precisei escolher, mas achei que tudo pudesse esperar... Que o que era meu o seria para sempre...que tudo era mágico demais para ser real... mas não era verdade.”

Minhas sobrancelhas se juntaram, como se pudessem me ajudar a fixar e entender o que aquela figura falava. Ela continuou.

“Chegou o dia em que o destino cansou de mim. O mar foi embora e quando eu me olhei no espelho, estava assim.”

“Por que?”


“Ah...acho que é como um feitiço...uma forma de me lembrar todos os dias que o tempo passa, e que quando a gente não vai buscar o que a alma nos pede, ela envelhece e entristece.”


Aquilo me encheu de uma tristeza quase palpável.

“Mas não há o que fazer? Não tem como você reverter isso agora?”

O futuro muda de acordo com as decisões que você toma. Se eu voltasse atrás hoje, e seguisse aquele mesmo caminho, não haveria nada do outro lado. Aquele futuro, ficou no passado. Só o que há dele são algumas lembranças e isso” - ela pegou nos cabelos - “o símbolo do tempo que eu perdi”.

“O que é a sereia?” Eu perguntei, curiosa.

“La Cantante. O impulso irresistivel a que eu tive a ousadia de desafiar.”

“Parece triste...” eu disse baixo, com medo de magoa-la. Eu podia imaginar a dor que vivia dentro dela agora. “Mas você parece ter uma alegria ...”

“É o conhecimento. Eu uso o que vivi para salvar outros do meu calvário. Sempre que alguém está salvo, deixa parte da alegria comigo. É uma troca. Eu não cumpri o plano A do destino, mas ele me deu uma boa missão como plano B, e é uma missão feliz.”

“Você está dizendo que eu preciso ser salva?”

Ela soltou uma gargalhada gostosa.

Não...só estou respondendo o que você me pergunta.”

Eu ri junto com ela, olhei mais uma vez as sereias e me despedi.
Ela me chamou de volta, perguntou se eu gostaria de levar alguma coisa.

“Ah...adoraria, mas não trouxe dinheiro.”

Ela virou a cabeça como se estivesse em dúvida.

“Mas eu posso te dar um presente, não posso?”

Mais do que rápido, tentei me livrar. Eu não teria nem para quem dar aquela coisa horrível.

“Não, não! Este é o seu trabalho...eu não posso aceitar.”

Ela sorriu com todos aqueles dentes.

“Eu nunca daria um deles a você. Eu os faço para mim. Quero lhe dar outra coisa.”

Ela enfiou a mão num baú que estava no chão, e tirou uma coisa branca, do tamanho da mão.

“Pegue...para você se lembrar.”

Era um caramujo branco, estranho, com brilhos de pedra e não de concha, que parecia ter sido incrustado com milhares de minúsculos brilhantes. Era lindo!

“Nossa...é incrível...nunca vi um assim.”

“Não é?” - Ela disse esticando o caramujo para mim. - “Escuta. Põe no ouvido.”

Eu obedeci.
Encostei o caramujo no ouvido e um zumbido estonteante penetrou meu cérebro como uma adaga afiada nos dois gumes, cortando por onde passava. Tudo girou. Eu senti um perfume forte de açúcar, baunilha e lavanda que entrou pelas narinas queimando até encontrar a ponta da faca no alto da minha cabeça.
O mundo escureceu.

Silêncio.

Uma dor no meu peito. Uma pressão forte. Um perfume...
Tive medo de abrir os olhos. Abri um só. As ripas acima da minha cama. “Como?”. Tive medo de abrir o outro, mas o fiz. Procurei o relógio na cabeceira: oito e meia. Olhei para a janela, era dia. Tive medo de levantar. Virei de lado e cobri a cabeça com o travesseiro. Meu rosto tocou uma coisa gelada. Tive medo de ver o que era. Meu rosto vibrou. Era o celular. Tive medo de ver quem era. Empurrei o travesseiro e afastei o rosto devagar. Olhei o visor...310-829.2435.

Pisquei várias vezes e olhei de novo: 310-829.2435.
Meu coração congelou. Fiquei olhando sem ação, apoiada nos cotovelos. Atender ou não, não era a única coisa que ocupava minha cabeça. Ainda havia o zumbido. Ainda não sabia se estava acordada. Não tinha mais a menor idéia do que era ou não realidade. A imagem da jovem-velha ocupou meu olhos: “o tempo que eu perdi” foi a frase que me veio.

Sussurrei ao telefone.
“Alô.”
Houve um silêncio prolongado.
“Alô?”
Nada. Eu não tive coragem de desligar. Podia perceber alguém respirando. Era uma constatação e tanto: o dono daquele número respirava! Tentei outra vez, em inglês.
“Hello.”
A respiração tornou-se mais intensa. Um sussurro quase inaudível e triste, soou como um lamento do outro lado da linha.

“Quem é você?”

“Quem é VOCÊ?” - eu sussurrei de volta.

Ele ficou em silêncio e foi como um vácuo gigante no tempo. Uma espera que podia esvaziar o pensamento de todos os cérebros do universo. Não aguentei e respondi antes dele.

“Mônica.”
“Monica...”

“É...Monica. Você?”


Hesitante e ainda sussurrando:

“Você...sonha...também?”

Wow! Como assim? Ele sonha? Aquilo parecia brincadeira, e eu não aguentava mais me sentir um fantoche nas mãos do destino, do tempo, da mulher das conchas ou do meu próprio delírio.

“Você sonha?” - eu devolvi, temendo a resposta que, na verdade ele já havia dado.
“As vezes...mas hoje... o número... Por que eu sonhei com o seu número, Monica?”

Ele parecia quase tão angustiado quanto eu.

“Eu não sei. Eu sonhei também...mas eu não sei o seu nome. Me diz?”
"Jack.”

“Você está em Los Angeles?”
"Sim. E você? Brasil, ne? ”

“São Paulo.”

“Eu te convidaria para almoçar, se fosse São Pedro.”

Uma risada saiu junto com o ar do meu nariz.

“Você está bem...Jack?”

Em nenhum momento, aumentamos o tom de voz. Sempre um sussurro, como se o outro fosse desaparecer ao menor movimento mais brusco.

“Acho que sim. E você?”
“Aliviada, acho.

Médio...depois do caramujo eu não sabia mais o que pensar. Eu estaria acordada agora, ou em poucos minutos abriria os olhos e veria as ripas no teto do quarto?

Jack?”

“O que?”
“Seus olhos...que cor?”

“Os seus são castanhos, eu sei.”
“são.”
“Azuis.”
nós falamos ao mesmo tempo.

Eu sabia...
Ficamos em silêncio novamente. Eu estava fazendo 865 perguntas mentais, mas não era capaz de pronunciar nenhuma delas. Tive a impressão do mesmo estar acontecendo com ele.

“Onde você tá agora?” Ele perguntou.
“Na cama.”
“Que horas são?”
“Quinze pras nove, acho. E você?”
“Na praia. Vim correr pra me ac....”

“Se acalmar do sonho?”
“É...eu sempre fico muito...”

“Tá tudo bem agora. Fica bem.”

“Monica..."
"O que?"
"Me promete?”

“Qualquer coisa...”
“Sempre que eu ligar...atende. Sempre?”

“Prometo.”
“Jura? Não desaparece?”

“Juro. Você também.”

“Nunca mais...mesmo.”


O silêncio voltou e com ele um aperto no coração. Que diabo!

“Monica, tenho que desligar, mas...posso ligar outra vez hoje?”
“Quantas vezes você quiser, Jack. Eu vou estar aqui. Posso também?”

“Ah...por favor...E nem pense em me largar de novo.”


De novo?
Foi ruim desligar. Pela primeira vez o termo “linha telefônica” fazia sentido para mim. Enquanto falávamos, havia uma linha que nos ligava um ao outro. Não que ela não existisse antes, mas esta parecia mais palpável. Desligar foi cortar esta linha, e eu posso imaginar um Jack de olhos azuis vagando no espaço, perdido, longe de mim. Desligar o telefone era desligar a gravidade. Para ter os pés no chão novamente, precisariamos estar conectados de uma forma real.
Com certeza eu ligaria para ele hoje...e amanhã, e todos os dias, até que todo o dinheiro que guardei na vida tivesse se esvaído em ligações internacionais.



imagem: Whirlpool Galaxy - M51a, localizada a 23 milhões de anos luz, na constelação de Canes Venatici

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Quinta-feira, Março 19, 2009

Calma meu povo!

Eu sei que devo o Telefone II...eu sei que devo o resto do "Três", eu sei tudo o que devo nesse mundo de meu deus! Mas tá punk! Alotofwork!
Esse final de semana tem. Prometo.

Beijo amigo no seu umbigo apressadinho.

Mg

Domingo, Março 15, 2009

Jack & Mônica - telefone I



310-829.2435

tá, eu já decorei, para de repetir isso! Você sabe que eu odeio repetição.

310-829.2435

EU SEI! 310-829.2435! Mas o que eu faço com isso?

Liga.

Ai! Ele disse isso com um meio sorriso tão irônico que parecia estar me chamando de burra. Claro! Liga! Que anta! Claro que aquilo era um telefone!
Eu sentei na cama outra vez, outra vez desolada, sem saber se prefiro me dopar pra dormir sem sonhar, ou se a verdade é que vou dormir esperando que ele apareça outra vez e me surpreenda como sempre.
É muito bom acordar, nos dias em que ele me coloca sob pressão desse jeito, me fazendo decorar um nome ou um número, ou um lugar - ele me irrita repetindo as coisas...odeio! Mas acordar é tudo o que eu não quero, quando os olhos dele estão lá me olhando - todo o azul onde eu quero me afogar -, quando eu sinto o perfume que vem da pele dele, quando o sol reflete o brilho quase azul dos cabelos negros ou a chuva escorre desenhando caminhos por entre os pelos. Acordar é dádiva e castigo. E a pior parte é saber que acontecem mais coisas enquanto eu durmo do que aconteceram durante meus últimos anos acordada. É torturante, mas ainda é o melhor que eu tenho.

O sol mal tinha aparecido quando eu joguei a coberta para fora da cama e me sentei. A luz la fora era fraca ainda e o silêncio mortal.
O que faz agora?” Eu vi meu celular olhando pra mim com cara de pergunta, mas não cabia na minha cabeça fazer uma coisa estúpida como essa. Eu ligo e digo o que? “Oi, é a Monica, tudo bem? Você me pediu pra ligar.” Claro...e ele diria o que? No mínimo desligaria na minha cara para depois contar a alguém que foi acordado de madrugada por uma louca. Lógico.

Eram 6:15 e eu não queria me mexer.
Há quanto tempo as ripas de madeira do forro do quarto são a única coisa que eu vejo quando acordo? Uma mais larga, uma mais fina, outra mais larga, todas se encaixando perfeitamente sem deixar frestas. Todas ali preparadas para me dar bom dia enquanto eu acordar sozinha. “Bom dia. Eu não estou procurando alguém para acordar ao meu lado.” Elas devem me achar louca (devem estar rindo agora). Ou serão cúmplices do meu amor noturno? Será que ele veio a mando delas? Será que estão com tanto tédio por não ver nada mudar neste quarto, que resolveram contratar um figurante pra animar minhas noites? “Obrigada.”

É...era o que eu devia fazer. Agradecer. Bom dia.


...


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Sábado, Março 07, 2009

damn vampires


Eu disse para uma amiga ler Twilight se ela quisesse uma coisinha digestiva e deliciosa ...livro de menina, super light. Sim sim...eu recomendei rindo baixinho, sabendo que ela ficaria viciada. E ficou, assim como as outras 40 milhões de pessoas que pagaram por um exemplar de Crepúsculo em 20 línguas diferentes. Sem conseguir resistir, essas pessoas acabaram comprando mais 40 milhões de cada volume da série: Lua Nova, Eclipse e Amanhecer.

Bom, depois de ler a história da Stephenie Meyer, eu pirei. Se não bastasse ter vendido tudo isso de livro e ter ficado indecentemente rica às custas do sangue alheio (piadinha sem graça), ela conta que sonhou com um vampiro que se apaixonava por uma menina e não podia ficar com ela porque a vontade de matá-la era mais forte do que qualquer outra coisa. Quando acordou, Stephenie escreveu o sonho para não esquecer. Wow! O sonho virou o primeiro livro - Crepúsculo - e sem ter escrito nada antes na vida, fechou um contrato de 750 mil dolares para escrever mais três livros. Essas e outras coisas me deixaram morrendo de inveja e querendo perguntar pra ela onde eu assino pra fazer o mesmo pacto com seja lá que demônio ela fez!

Tudo isso é quase sobrenatural, mas não mais do que o fascínio das mulheres pelo vampiro que ela criou. No começo, ele - Edward Cullen - roubou o coração de uma multidão de adolescentes. Em seguida ele invadiu os aposentos das mães dessas meninas e depois disso perdeu o controle. Minha tia de 70 anos está irremediavelmente apaixonada por ele. Minhas amigas de 40 a 55 também. Eu mesma te digo que se esse moço existisse e quisesse o meu sangue, eu o serviria em taças de cristal...e se ele quisesse me matar, no problem, desde que fizesse isso bem devagar (aff!). O fato é que Edward Cullen saiu pelo mundo roubando o coração de cada pessoa que ousou abrir as páginas de "Crepúsculo", fosse homem, mulher, adolescente ou não.
Como faz pra entender? Aí eu que tenho tempo, fiquei especulando a possibilidade de uma criatura supostamente perigosa e mortal exercer tamanha atração. Bom, não é de hoje que histórias de vampiros atraem as mulheres, e nas minhas elocubrações eu cheguei a uma conclusão terrível. Acompanha o meu raciocínio:

. Vampiros são irresistíveis. Feitos para matar, tudo neles atrai a presa para perto de si. Diz Edward Cullen: "Eu sou o predador mais perigoso que jamais existiu. Tudo em mim é convidativo: minha voz, meu rosto, até o meu cheiro, como se fosse preciso...como se você pudesse fugir de mim ou lutar comigo, eu fui criado para matar." Então, por mais que você queria dizer não a ele, ele vai vencer você. Ele é perigoso e forte enquanto você é frágil. Existe desculpa melhor para dizer sim? Quem pode condenar uma mulher indefesa? Você nunca será julgada.

. Ele “ataca” durante a noite pois não suporta a luz do dia. Chega quando você dorme, desprevinida e desarmada, logo – de novo – você não fez nada de errado.

. Quando alguém deseja você, deseja o seu toque, o seu gosto, o seu corpo. Isto é o que estamos acostumadas. E parece suficiente. Mas...quando um vampiro deseja você, é muito maior e mais profundo. Ele quer o seu cheiro, o seu gosto, a sua carne…e não basta que ele lhe domine e possua completamente, ele ainda quer você invadindo o corpo e a corrente sanguínea dele. Ele quer o seu sangue correndo dento dele. Ou seja, ele quer você inteira… Em troca, ele lhe dá o que ninguém mais poderia: imortalidade e juventude eterna.
Ah…vai! Me diz que isso não é lindo! Quem pode amar e desejar tanto assim? Quem pode dar um presente tão generoso?

Minha conclusão é simples: o perigo real são as mulheres.

Mulheres são assustadoras. A verdade sobre a existência do vampiro está diretamente relacionada à sede de poder feminino: nós não queremos ser simplismente amadas. Queremos um amor tão imenso que seja imortal. Queremos um homem aos nossos pés, implorando para ser alimentado, para que sua sede seja saciada com o único nectar que pode mantê-lo vivo - a nossa existência. E queremos tudo isso sendo inocentadas de nossos crimes.
O vampiro, então, passa de agressor a vítima. Ele não tem dentes afiados nem tanto poder...ele não passa de um homem. O homem que escolhemos.
E aquela pobre mulher frágil, indefesa que não deveria ser julgada? Bom, ela ainda não nasceu.

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Segunda-feira, Março 02, 2009

intelectualidade x liberdade

Deixa eu contar que toda vez que eu encho o saco da minha filha dizendo que ela precisa assistir filmes de adulto, parar de ouvir musiquinha pop, jogar fora os DVDs de "High School" filmes, no minuto seguinte me bate um tremendo remorso...
Ah...amnésia materna! Esqueci que até os 17 anos eu era uma boboca pop sonhadora que gostava de filminho adolescente, não tinha estilo definido e não sabia quem eu era. Hey! Mas eu ERA adolescente! Foi aos 17 que arrumei um namorado intelectual-estudante-de-arquitetura-dos-anos-70-comunista, e a minha fama de intelectual começou. Sim, claro! Ele me ensinou coisas que pai e mãe não devem ensinar (uia!) e o convívio com ele modificou muita coisa em mim. Pena que hoje, após se tornar um pai de família e ter lá seus 50 anos, ele não passe de uma pessoa mediana, chata, moralista e...lógico...com amnésia!
Ter namorado esse moço me rendeu o estígma de "intelectual da família". Depois eu entrei fundo no mundo da publicidade e tudo se perdeu de uma vez: namorei outros QI's superiores, fui obrigada (entre aspas) a conhecer outro mundo, assistir Buñuel, Fassbinder, Win Wenders, Fellini, Saura, Bergman, mergulhar no mundo da arte, mudar o gosto musical, ouvir mais Jazz, mais Blues, mais bandas e poetas revoltosos, donos das mudanças do mundo.
Nada disso doeu porque nada disso foi forçado. Assim como o meio termo libriano também não é forçado.
Eu explico: não existe nada mais complicado para mim do que a NÃO MUDANÇA. Assumir um lugar do lado de lá do muro seria a pior das dores pra mim. Como assim eu vou ficar do lado de cá sem saber o que tem do lado de lá? Eu preciso das duas coisas. Sempre foi assim. Passei grande parte da vida entre dois lados - não em cima do muro -. Eu era normal demais para andar com os malucos, maluca demais para andar com os nerds. Numa briga tem sempre dois lados, na beleza também, nos tipos de inteligência que as pessoas têm, em tudo...tudo tem dois lados e você está certo por um lado, mas ele está certo pelo outro e so it goes...Assim sou eu: eternamente vendo o que tem de bom em cada coisa, o que faz com que nada seja de todo ruim.

Well, mas voltemos à intelectualidade. Ela é linda! Ver o mundo pelos olhos de quem pensa diferente é maravilhoso, se fosse realmente assim. Porque a verdade é que, assim como a ignorância, a intelectualidade aprisiona. Cria opiniões formadas e preconceitos: você vê novela? É medíocre. Você gosta de RAP? Ui...que irritante. Você gosta de comédia romântica, não gosta de Caetano Veloso, acha que o Chico canta mal, detesta filme de arte? Ui...que ignorante!
Ignorante my ass! Que LIVRE você é! Que liberdade maravilhosa poder achar o Caetano Veloso um chato e dizer isso mesmo vendo o nariz torcido de quem esquece de se questionar há milênios. E amar Bergman. Que delícia perder uma tarde vendo filme da Meg Ryan anos 80, escapista, bonitinho! Que delicioso devorar os quatro livros da série Twilight e se apaixonar pelo Edward Cullen com toda a sua alma! (e a minha também)
Ah, que mediana eu sou! Deus salve a mediocridade se ela me der tanto prazer! Deus salve a minha cultura quando eu andar por Barcelona e chorar dentro da Sagrada Familia. Deus continue me dando discernimento para saber o que é ruim e o que é profundamente agradável aos olhos e ao coração, mesmo que seja uma obra consagrada. Que eu continue sabendo que os críticos da Folha de São Paulo são uns recalcados sem noção que acham MESMO que "Se eu Fosse Você 2" é melhor do que "Quem Quer ser um Milionário" ou "Benjamin Button". Ah! Deus conserve a minha ignorância!
E tudo isso foi só pra dizer pra minha filha ficar tranquila, porque vai chegar o dia que ela vai descobrir o outro mundo - o mundo mais complicado. E vai chegar o dia dela crescer e ter opiniões inflamadas, e namorados revoltados, e grupos de discussão sobre o destino da humanidade, etc etc etc...mas tem tempo, Natasha. Aproveita enquanto tudo é perdoável. A adolescência já é cruel demais sem a prisão da intelectualidade. Ou a sua liberdade.

E no fim das contas, veja por mim, o Raul Seixas é quem tinha razão: bom mesmo é ser essa metamorfose ambulante.
Me larga! Eu sou livre.

Um beijo amigo no seu umbigo intelectualóide.


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Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Alô?

"Eu gostaria de falar com o Sr. Mercedes."
"Pode falar...é ela."
"Ah...nossa...é que aqui dizia Mercedes, então eu achei que fosse SENHOR."
"Como assim?"
"É...pensei que fosse um senhor, Mercedes."
"Mas Mercedes é nome de mulher."
"É? Não sabia...achei tão diferente..."
"E me ligou para...?"
"É que a revista Isto É está com uma campanha de incentivo à leitura...a assinatura vai sair por só 6 vezes de 35 reais."
"Puxa que bom...mas aqui em casa ninguém lê."
"Não?"
"Não...obrigada."


"Alô...?"
"A Senhora Menezes se encontra?"
"Não tem ninguém com esse nome."
"Não?? E o Tiago?"
"Também não tem Tiago."
"Ai...é da telefônica, eu sou o técnico, precisava terminar um reparo..."
"Não seria Mercedes? Diogo?"
"Ah...isso!"


"Por favor o Senhor Diogo?"
"Ele não se encontra...são 3 horas da tarde...ele trabalha."
"A que horas eu posso encontrá-lo?"
"A que horas você chega na SUA casa?"
"Não importa, Senhora...a que horas ele se encontra?"
"Depois das 9."
"Só trabalhamos até as 18, senhora."
"O que você quer que eu faça?"
"Tem um telefone onde eu possa encontrá-lo?
"Alguém liga pra você no trabalho?"
tuuu. tuuuu. tuuuu. tuuuu...


"Alô? Senhor Luiz?"
"Não."
"O Senhor Luiz se encontra?"
"Ah!...não."
"A que horas ele chega?"
"Não sei...ele não mora aqui."
"Mas ele chega em algum momento?"
"Ele não mora aqui."
"Sim, mas ele vai aí as vezes?"
"Só se vem escondido, porque eu não conheço nenhum Luiz."
Tuuuu. Tuuuu. Tuuuuu.

"Senhora Mercedes, então, daqui a uns cinco minutinhos, uma mocinha muito simpática vai ligar para a senhora...a senhora explica que falou comigo - o Jean - e que quer cancelar as assinaturas...ela é uma mocinha muito simpática...a senhora explica para ela. Assim ela cancela as assinaturas e bloqueia os seus cartões para nunca mais acontecer de a senhora receber revistas indesejadas, está bem? Então...daqui a uns cinco minutinhos, uma mocinha muito simpática vai ligar...a senhora atende, entendeu? Daqui a uns cinco minutinhos, uma mocinha muito simpática..."
"ENTENDI, JEAN! CHEGA!"

No dia seguinte...

"Alô?"
"Senhora Mercedes? O Jean da editora me pediu para ligar para a senhora para confirmar as assinaturas das revistas Isto É Gente, Menu, Planeta, blablablablabla"
Tuuuu. Tuuuu. Tuuuu.

Me diz pra que é que eu ainda atendo telefone!

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Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

** momento I - setembro/1989

(parte integrante de auto-exílio)


Como é que faz
para omitir uma explosão
de todo seu ouvinte,
todo transeunte?

Como é que faz
para esconder um céu brilhante
de todo pássaro,
seu habitante?

Como é que faz
para reduzir
"Este Amor"?
Apagar
"Este Amor"?
Esquecer
"Este Amor"?

Como é que faz
para não tê-lo vivido?
não tê-lo bebido aos tragos?
não tê-lo todo nas veias,
nos tecidos?

Como é que faz,
me diz?
Para falsear este tudo,
este tanto,
e guardá-lo todo
- este todo inteiro -
em algum canto?




auto-exílio é uma série de textos e poemas escritos à máquina, encontrados perdidos numa pasta velha no sótão da minha casa. são fragmentos de da vida que eu levei de 1981 a 1989. de tempos em tempos, ou sempre que eu não tiver o que dizer, vou publicar um deles.

**momento I é o primeiro de três poemas escritos para a mesma pessoa, que fez parte da minha infância e reapareceu vinte e dois anos mais tarde, depois foi embora...do mundo.
não pergunte! eu tenho amnésia.

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Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Desabafo


Descobri que não há tempo para imaturidade emocional. Não há tempo para cair, deixar o mundo me arrastar, me debulhar em lágrimas e esperar o tempo passar. Ele passa, e quando tudo acaba, os problemas continuam no mesmo lugar.
Descobri que perder alguém e mais difícil do que imaginei. Eu não tenho muita experiência com tristezas em geral. Sou muito ruim em "ser triste". Se precisasse viver disso seria um grande fracasso.
Mas ai! Dói tanto! Mesmo preparada, mesmo sabendo que era impossível evitar, mesmo estando pronta...Hello? Não tem ficar pronta para um coisa dessas. Como disse a minha mãe: "passei cinco anos sabendo que isso ia acontecer, e na hora que aconteceu, foi tão de repente..."
É assim...de repente. Você sabia o que tinha de fazer, teve tempo de preparar tudo, mas "Não agora! Espera porque eu não disse tudo. Espera que eu tenho mais um carinho, mais uma palavra, mais um segundo..."
De uma hora para outra, aquela pessoa forte, poderosa, sabe aquela? Ficou minúscula, pequenininha, com vontade de pedir colo. Mas não dá tempo, sabia? Só dá pra ser criança quando ninguém precisa da gente, e este é um dia que eu nunca vou ter. Sempre alguém estará precisando de mim e eu tenho de estar inteira. "Hey! Devolve meus cacos, porque alguém está mais quebrado do que eu!"
Quando eu tinha uns vinte e poucos anos e achava que sabia tudo, fui a uma astróloga. Esqueci quase tudo o que ela disse, é claro, com excessão de duas coisas que me marcaram bastante:
1. Os sagitarianos são o seu chão. Toda vez que a vida estiver fora do rumo, um sagitariano virá mostrar que voce está viva e levá-la de volta ao caminho certo, mesmo que pelo atalho mais penoso. Ela disse uma outra coisa sobre eles também, mas não cabe nesse texto.
2. Voce parece forte. Voce é forte. Voce não precisa de ninguém e todo mundo sabe disso. Por isso, voce vai passar os piores momentos da vida sozinha.

Verdade 1 e verdade 2. Dessa vez eu não fiquei sozinha. Não sozinha nesse sentido comum...só o meu sofrimento que foi meio solitário. Eu não podia chorar um monte e mostrar que ainda sou a narigueta do pai, porque havia pessoas muito mais frágeis precisando de colo. Ao mesmo tempo, minha filha se recuperava de uma cirurgia grande e meu marido teve um treco e eu achei, por eternos 40 segundos, que ele fosse morrer também. Não seria justo...juro que não seria justo!

Então como? Me diz, como? Tive que engolir o choro e seguir em frente. É bom...é...mas é ruim, porque neste momento eu me sinto quebrada. Faltam pedaços e eu estou vendo a fresta deixada por eles. Está difícil escrever, está difícil me organizar, está difícil trabalhar...ao mesmo tempo eu não paro, não sento, não leio, não vejo TV, não relaxo. Passo o dia fazendo coisas que não preciso fazer, sem parar um minuto, até cansar e dormir - o que só acontece depois das três da manhã.
Eu queria sentar e chorar por horas para poder acabar com isso e voltar, inteira, para vida que estou fingindo não ver.

Thanks for listening.

Mg

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009

Amaury Gameiro, meu pai.
9 Junho 1926 - 18 Janeiro 2009



Será que no céu tem vinho? Será que todos os jornais do mundo chegam até lá? Será que há livros suficientes para ocupar uma mente curiosa? Será que algum cozinheiro faz bacalhau, empadão, bife de madrugada, rabada, jacaré, tartaruga, javali, codorna, algum animal estranho, ou qualquer coisa nova, um petisco, um pepino azedo, um queijo bom? Será que tem rabanete? Tem alface, tomate, pimentão, molho de salada pra virar o prato escondido? Será que no céu tem música, documentário, conversa boa, gente alegre, terno e gravata? Será que tem ostra e marisco? Tem figo ramy? Será?
Será que alguém no céu pede água no meio da noite? Pede explicação? Será que alguém por lá só pede para ouvir sua voz? Será que pede para ouvir histórias de infância, de pessegada em lata de filme, dúzias de ovos roubados, flores comidas no jardim? Será que alguém no céu pede para dar a mão e aprender o caminho? Será que seguem seus passos e olham seu rosto com orgulho? Será que existe um céu?

Se não existia, eu tenho certeza que ele está fundando um. Se já existia, seja onde for, o céu agora ficou mais inteligente.

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Já é 2009

Menino atingido por estilhaços de bomba na Faixa de Gaza

Isso quer dizer que o mundo não acabou. Ou quase isso.

As pessoas continuam se matando por motivos patéticos como religião...ou outras desculpas ainda mais esfarrapadas que me fazem pensar que realmente o problema é o desejo incontrolável de sentir gosto de sangue.

NÃO MATARÁS - escreveram os inventores da fé religiosa, uma lei que nem eles cumpriram até hoje. Ou como diria Carlin, o mandamento correto seria: SE NÃO TIVER OUTRO JEITO, FARÁS UM ESFORÇO PARA NÃO MATAR. MAS SÓ SE FOR POSSÍVEL!
Não tem jeito mesmo...todas as alternativas de paz são ilusórias e parecem ter saído de alguma letra de música do Lennon, especial de TV da Xuxa ou algum conto de fadas onde todos os vilões serão mortos pelo príncipe encantado e todos os mocinhos serão salvos da barriga do lobo. E é mais ou menos isso que as religiões pregam, não é? "Se você for bonzinho, vai ser comido pelo lobo mas será salvo." "Se você for malvado eu castigo, machuco, maltrato, ponho no inferno queimando e gritanto...mas eu te amo...então se você virar casaca eu salvo você também." É a bondade divina... O céu ta cheio de "ex". Ex-drogado, ex-assassino, ex-prostituta, ex-viado...(oops...isso não existe), ex-ladrão, até ex-terrorista vai pro céu e encontra não sei quantas virgens pra ele subjugar. Que glória!
Eu jurei que não falava mais em religião, mas toda vez que vejo uma nova guerra, meu controle se vai e eu começo de novo....

Então assim: eu acho todo mundo bipolar! Que personalidade mais complicada essa que Deus tem! O que ele fez? Prometeu uma terra que não era dele pra um povo oprimido que foi escravo de mais um monte de usurpador bipolar durante séculos...fez os pobres coitados acreditarem num monte de balela e foi embora? Cadê essa pessoa caridosa na hora que o circo pega fogo? Onde ele foi se esconder que não vai lá agora resolver esse "probleminha" criado por ele, entre os palestinos e os judeus? E os rabinos? Cadê? E os pastores, padres, cardeais, papas? Essa é uma guerra religiosa! Eles não deviam estar lutando pelas leis que eles mesmos inventaram e pregam? Estão rezando, é isso? Na hora que a casa cai eles vão rezar pra que? É uma ligação no telefone vermelho de Deus pra dizer que o povo dele ta se matando aqui em baixo, ou é só um fax com um relatório:

"Caro Senhor,

Calor aí? Aqui o tempo tá fora de controle. Divertido...
Tudo corre conforme combinamos. Se continuar assim, as profecias serão cumpridas a termo e os terráqueos não terão outro pensamento senão obedecer e comprar mais exemplares de "O Livro", temendo o fim e esperando sua volta. O Oriente Médio continua obedecendo, e se tudo der certo, logo logo a China e a Índia passarão a colaborar.
Israel está acabando com aquele povinho vizinho, enquanto os incautos reagem com pedras, como antigamente. Ha! Um massacre!
Quanto ao resto, (Iraque, América, fome, África, enchente, deslisamento, etc etc) não se preocupe...caos instaurado, ok!
Em pouco tempo, o senhor estará no comando.

Abs, vlw

P.S. Mesmo com as evidências, ninguém desconfia da sua identidade. Relax. "

Ai ai...espero que tenha outro lugar pra eu ir, porque o céu deve estar fora de questão.

E eu acho uma coisa mais podre ainda, sabia? Que Jesus fugiu pra vir pra Terra e dizer: "Galera...vocês estão sendo enganados!" Ele era um rebelde, da Resistência lá do Paraíso. Veio pra cá escondido, trazido por mais meia dúzia de rebeldes, achou uns seguidores, fez uma bagunça, disse coisas que todo mundo entendeu, fingiu que morreu e se mandou pra arrumar outro planeta que tinha sido enganado também. Aí o pai dele ficou sabendo, ficou louco de raiva, pegou uns fominhas de poder que estavam por aqui na época e prometeu mundos e fundos pra eles. Os caras, super corruptíveis, aceitaram a barganha e fundaram a Igreja pra limpar a caca que Jesus tinha feito. Mataram um monte de neguinho que acreditou em coisas tipo " Tua fé te salvou", "Somos todos irmãos", "Somos iguais", "O Espírito Santo está em você como está em mim (meaning seu cérebro pode tudo, você sabe todas as línguas, o presente, o passado e o futuro)", e outros textos que acabavam dizendo que todo ser humano é poderoso, que ninguém pode subjugar, escravizar, humilhar ninguém, a Terra é de todos nós, etc etc...Mandaram reescrever os depoimentos das testemunhas, tirando umas palavrinhas, inventando umas frasezinhas, contando umas mentirinhas santas. Reinterpretaram as frases comprometedoras. Pronto! O rebelde entrou pra história como aliado, e daí pra frente tudo virou um caos (como o planejado).

Ou seja, senhoras e senhores, não tem saída. Pelo menos não pra mim, que segundo as "novas" leis, vou pro inferno queimar pra sempre...mas Deus me ama. Pode confiar.


Se você tiver que lutar, por favor lute pela inteligência...lute pela vida e pelos seus, não por idéias mancas.
Boa sorte na sua existência nesse planeta burro.

Bom dia!

Domingo, Dezembro 28, 2008

Resoclusões

Estou fazendo hora para não dormir. Tenho que sair de casa as 4 para o aeroporto, pegar um vôo as 7 que vai atrasar com certeza...e se eu dormir agora sei que vou perder a hora, etc etc...vocês me conhecem. Melhor deixar para dormir no avião, I guess. I hope. I don't know.

Tenho impressões para relatar. Coisas que tenho pensado e talvez possam se transformar em resoluções de ano novo, embora eu ache que resoluções de ano novo são como lista de supermercado: a gente faz, mas sempre esquece no balcão da cozinha. Ou sou só eu?
Agenda é pra não usar, lista para não seguir, requisição de exame para perder, lista de prioridades para esquecer, e assim por diante. Quando serei eu capaz de seguir as regras que eu mesma me imponho? Aff.
Além destas coisas que podem ser resoluções, tenho conclusões...serão elas definitivas? Sei lá.

Conclusão:
Eu não me conheço. Passei a vida dizendo que sou uma leitora preguiçosa e que não gosto de ler ficção, mas nos últimos 30 dias devorei 5 livros com a voracidade de um leão, todos fantasiosos, todos merecendo que eu escondesse a capa para ninguém dizer: "O que? Você lendo isso?"

Resolução:
Joguei fora meus rótulos. Gosto do que me dá prazer e os objetos deste prazer variam de ano para ano, de momento para momento. Vou tentar manter isso como um mantra sagrado.

Resolução:
Em 2009 vou editar um livro. Algum. Qualquer um. Seja uma coletânea de crônicas, seja de short stories, seja um dos romances que eu venho escrevendo pouco mas sempre. Chega de ser uma escritora não publicada. Estou ficando velha e talvez seja hora de fazer alguma coisa que fique para alguém, ou sirva ao menos para fazer fogo num dia frio.

Conclusão:
Ainda bem que o meu marido existe para me dar um empurrão de vez em quando. É duro, mas tenho que adimitir que sem esses empurrões, eu talvez não tivesse tido coragem de realizar metade do que realizei nos últimos 16 anos. (claro que ele tem a ver com a resolução acima)

Resolução:
Escrever na primeira pessoa é mais fácil, mais envolvente e mais divertido, e talvez seja exatamente isso que faz com que alguns dos meus textos sejam adorados por quem lê. Vou modificar os meus dois romances - ambos narrados por uma voz alheia à história -, reescrevê-los desde a primeira página, fazendo aquelas duas mulheres contarem suas histórias de própria voz e acho que assim eu não só consigo terminar os dois, como consigo envolver melhor a quem for ler.

Conclusão:
Se eu não tivesse deixado de ser preguiçosa e não tivesse tentado descobrir o que fez com que a Stephenie Meyer conseguisse tirar milhares de adolescentes ao redor do mundo da frente do computador, para ler uma saga de 4 livros de 500 a 700 páginas cada um, eu jamais teria chegado à resolução acima, o que comprometeria seriamente a outra resolução -- aquela ainda mais lá em cima.

Conclusão:
Consegui cumprir a resolução de ano novo de 2008: emagreci 13 kilos, estou me sentindo bem, embora não exatamente magra (dá um tempo...eu tenho quase 50 anos!!), e foi a grande vitória dos últimos 8 anos. Cheguei à conclusão que engordar foi uma maneira de me proteger e me esconder; eu tinha milhares de motivos para isso, mas agora que os motivos se foram, era hora de voltar a ser eu. I'm back!

Resolução:
Com a mesma força que me fez fechar a boca e ser disciplinada durante um ano inteiro, eu vou mudar algumas outras cositas.
. Vou deixar de ser cigana e comprar a minha primeira casa. (Ok...mentira..vou comprar a minha primeira casa mas não vou deixar nunca de ser cigana.)
. Vou fazer aula de canto.
. Vou elaborar um cardápio decente (ai que saquinho...alguém faz isso pra mim?) para parar de ter que pensar no que fazer de comida todos os dias, porque essa é a parte mais ridícula e repetitiva e chata e sem importância da vida! To cansada de sair da mesa do almoço tendo que decidir o jantar. Será que não dava pras pessoas comerem só uma vez por semana?
. Vou pensar numa lista decente de coisas que quero ou preciso fazer.

Conclusão:
Outra resolução cumprida foi: vou escrever mais.
Eu escrevi muito mais esse ano do que nos últimos outros. Talvez não tenha publicado tanto, mas escrevi histórias mais longas, conseguindo o que, durante muito tempo, eu julgava impossível: escrever histórias e não apenas impressões.

Resolução:
Agora que eu sei que posso...vou me libertar dos pequenos problemas que eu invento para me impedir de escrever como eu gosto, e vou me colocar dentro do que quero contar...e sim, sim, mais uma vez EU VOU ESCREVER MAIS.

Conclusão:
Nunca, em 47 anos, eu fui tão tranquila, tão segura, tão feliz.

Resolução:
Vou manter isso como mais um mantra sagrado.


Feliz Ano Novo, crianças...que 2009 seja muito melhor do que este ano terminado em 8, que como todos os outros anos terminados em 8, parecia nunca querer acabar!

Um beijo amigo no seu umbigo

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Música que dói

Você sente dor ao ouvir alguma música?
Já aconteceu de estar distraído e de repente ser parado por notas musicais que te atingem na boca do estômago e correm direto para a garanta, pressionando o peito?
Eu tenho muito isso.
Lembra quando o TPM tocava "The Blower's Daughter" do Demian Rice? Lembra como aquilo doía em mim? Ah...você não sentiu. Pena.
Algumas músicas me fazem chorar na primeira vez que eu escuto. Algumas vozes, não sei se é o tom, não sei se é a dor que já estava nelas, não sei o que é...mas quebram meus joelhos, torcem alguma coisa dentro de mim. É triste, mas é lindo...e eu aproveito o momento, porque são poucas as coisas na vida que arrebatam dessa forma.

Me desconcerto, me concentro -- bem no centro de mim --, sinto a lágrima rastejante que vem subindo e rasgando até o olho...e sorrio. Estou viva! É o que essa dor vem lembrar.
Ela vem assim: Let me Sign

Boa chuva pra você.

Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

Desembaraçar

"Aprendi que se pode conhecer muito bem uma pessoa pela maneira
que ela reage a três coisas: dias de chuva, bagagem perdida,
e o modo como ela desembaraça luzes de Natal."

Maya Angelou


Essa sempre me pareceu a hora mais importante do ano. A hora de provar para mim mesma que eu sou capaz de desenrolar cada fino fio verde, entendendo para onde cada volta pretende ir, tomando o cuidado de não bater as pequenas bolhas finas de vidro, quase inexistentes, e descobrir, uma por uma, qual lâmpada ainda pode guardar alguma vida, depois de 340 dias de quase-morte.
Parece dramático, eu sei.
Mas eu acho que existe uma relação muito clara entre as luzes de Natal e a vida que vivemos. Ou sou só eu? Enquanto elas dormem, fingindo não ter vida, durante o ano inteiro, eu preciso de luz. Não bem assim...eu preciso TER luz. Sou eu quem precisa iluminar e estar viva, reluzente, cheia de energia, durante os dias que vão passar tão rápido quanto o acender e apagar contagiante das luzes em festa.
Durante o ano inteiro, me parece, o que fazemos é desenrolar, desembaraçar, tentar entender e seguir caminhos que são às vezes claros com o dia, às vezes misteriosos como as curvas de um rio barrento. Para que lado estamos indo? Que movimentos podemos fazer para não esfacelar desejos em milhares de pedaços tão finos que acabem virando pó? Como seguir essa linha e mantê-la nas mãos de um jeito que nada se perca, nada se enrole para sempre, nada nos mantenha presos sem poder mover as mãos?

Sempre que abro as montanhas de caixas que guardam outras caixas e saquinhos plásticos, descobrindo as cores e brilhos dos enfeites de Natal, tenho a mesma sensação incômoda de que o ano está nas minhas mãos.
Existe uma árvore grande ao meu lado, inteira verde e crua e eu preciso transformá-la numa explosão de alegria. Preciso fazer com que ela tire o fôlego das crianças e encante os adultos. Está na minha mágica trazer imagens da infância, rostos que se foram, risadas alegres e a lembrança das fitas coloridas desatando seus laços para revelar sorrisos. É quase impossível fazer isso sem saber que estou, enfeite por enfeite, construindo os próximos 12 meses. "O que será? Por via das dúvidas, é melhor usar mais brilho!"

Toda vez que me me deparo com os milhares de fios das guirlandas da árvore -- são fios de bolinhas vermelhas, outros dourados, outros são notas musicais, outros fios gigantescos de pequenos sininhos -- eles estão todos na mesma caixa, trançados num grande bolo a princípio impossível de entender --, começo a puxar cada ponta para tentar separá-los, e penso se não é exatamente isso que passamos a vida fazendo. Pelo menos nós, mulheres. Se parar pra pensar, me lembro quantas vêzes, desde sempre, aprendemos a "desembaraçar". Observando ainda pequenas, a paciência com que nossas mães desembaraçam seus cabelos de manhã. O movimento da escova cuidadoso para não arrebentar os fios. E imitamos seus gestos em frente ao espelho, nos achando lindas, desmanchando os pequenos nós que estão lá. Depois os novelos de lã, os nós dos bordados, a linha que enrola ao pregar um botão, a máquina de costura que prende o carretel quase arruinando a costura, os pontos complicados do tricô, as franjas do tapete, os cordões da cortina, os fios da persiana, os colares na caixa de bijouteria, os cabelos de nossas crianças, e tudo outra vez.

Depois de todos estes pequenos e árduos testes de paciência, estamos prontas para guiar os passos dos filhos que teremos, entender os caminhos do homem que amamos, traçar o mapa por onde andará cada pessoa que importa, dizendo, sem dizer, por onde se chega mais rápido ou por onde a estrada é mais bonita.
Desembaraçar. O fio de luz, a vida alheia, a nossa própria, as relações. É este o talento secreto das mulheres mágicas que enfeitam, todo ano, as árvores de Natal, os dias do ano, as vidas que a cercam, o emaranhado dos caminhos por onde passam.

Chegando a hora o meu post de Natal, o que eu desejo a cada uma das pessoas que passam por mim, é que tenham o poder de enfeitar, com claras linhas de luz, os dias de vida que virão. Os seus e os de quem precisa da sua luz para sobreviver.


foto: Pleiades (M45) Sete Irmãs (luzes....no céu)
www.astrocruise.com

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

Saindo da Rotina


Cheguei ao aeroporto, fiz check in e fui comer, já que meu vôo estava atrasado. Com a minha sorte, isso é normal. Meu iPod tem milhares de músicas que eu não aguento mais, então resolvi que não era isso que eu ia ficar fazendo até o vôo chegar. Mentira! Eu não posso ficar ouvindo música no iPod assim, em lugares lotados. Se houvesse uma escala para isso, minha facilidade para entrar em transe seria de 100% e, como todo mundo sabe (sabe?), o melhor canal para induzir alguém ao transe, seja hipnótico, seja psicótico (hahah!) são os ouvidos. O que quer dizer que ligar um iPod na minha orelha possibilita 100% de chance de um vexame interestadual. Eu, no mínimo, cantaria em voz alta. Se não fosse isso, -- e as chances são realmente mais fortes, assim 300% -- eu poderia falar sozinha, esquecendo completamente onde estava. Eu nunca entendi muito isso em mim, até começar a reparar nas reações do meu pai, depois que a surdez dele deixou de ser um probleminha de audição para ser realmente surdez. Às vezes ele pensa alto, ou emite uma opinião que deveria ter guardado para si, sem perceber, sussurrando. Existe então a possibilidade de um internamento relâmpago pela segurança do Aeroporto Afonso Pena, caso eu tampe meus ouvidos com o fone do iPod e deixe que alguém cante alto dentro deles. E não é só isso: eu posso dirigir ouvindo música, mas não posso dirigir ouvindo música muito alta por muito tempo, porque saio do mundo também; principalmente se a música for meio chapante, com longos solos, ou vozes míticas. O que? Você não sabe o que são vozes míticas? São vozes que não entram pelos ouvidos, mas diretamente pela boca do estômago...vozes que mexem com o subconsciente. Se você nunca sentiu isso é porque eu sou muito mais maluca do que você, sem usar as drogas que você usa. Ha!

Well...iPod descartado, fui até a livraria. Passei me coçando pela prateleira de auto-ajuda -- eu sempre tenho uma coceira estranha perto desses livros --, olhei as revistas, fui saindo sem uma solução, quando vi a capa de um livro chamado Crepúsculo. "Crepúsculo...Crepúsculo...ah! Twilight, da Stephenie Meyer!" Fiquei feliz. Eu ia ler Twilight em inglês, mas já sabia que não chegaria ao segundo capítulo porque...bom...se eu ler na cama, eu também entro em transe e, embora eu até mude as páginas, estou na verdade longe dali, em outro mundo, fazendo outra coisa. Isso em Inglês piora consideravelmente e meu transe pode acontecer dez páginas mais cedo. Pois é...eu nunca disse que era normal. Comprei o livro sem grandes expectativas, uma vez que uma história sobre vampiros adolescentes é semper uma história sobre vampiros adolescentes. Sentei-me na sala de embarque, abri a primeira das quase 400 páginas, o vôo chegou, embarquei só quando a fila já não mais existia, sentei, continuei lendo, esqueci de afivelar os cintos, desci em São Paulo, fui uma das últimas pessoas a deixar o avião, vim para casa indignada por enjoar lendo no carro. Não li mais. Isso era sexta-feira. No sábado à noite, depois de embarcar meu marido para o outro lado do mundo, dar jantar para as crianças, etc, etc, sentei na sala de TV e retomei a leitura. Quando tive fome, percebi que eram duas e meia da manhã. Fui lendo para a cozinha, peguei umas fatias de queijo e uma coca-light, voltei para o sofá jurando que já iria para a cama, mas só consegui fazer isso às quatro horas. Fui deitar, mas resolvi ler só mais um pouco...às cinco e meia forcei minhas mãos a fecharem o livro e apagarem a luz, numa agitação tão grande que eu poderia sair para dançar. Hoje, domingo, sentei e li até a última página do livro que termina com o primeiro capítulo do segundo livro da trilogia....Agora estou sofrendo! Alguém conhece uma livraria 24 horas?

Só para constar:
. morri de inveja da autora.
. morri de vergonha de ser tão preguiçosa, editorialmente falando.
. não vou ver o filme porque o meu vampiro é dez vezes mais bonito e mais power do que o Robert Pattinson

Sábado, Novembro 29, 2008

Três - Autora Pergunta

Tem gente pedindo pra eu publicar o próximo capítulo de TRÊS, mas temos um problema, Senhoras e Senhores: eu tenho quase tudo o que foi escrito ANTES da torcida de pé, e praticamente NADA foi escrito depois do beijo.
Esta é aquela história que me deixou maluca, porque eu mesma não sei escolher para NANI com quem ela deve ficar: o maravilhoso Mitch ou o delicioso Mac?
Entrei em crise. Eu sou libriana, caramba! Sabe o que significa ESCOLHER pra um libriano? hahahah!

Então...prometo que vou me concentrar. Mas enquanto isso...que tal se eu recomeçar, e mostrar o que estava lá antes do encontro no vaso de rosas brancas?

Me digam.

Bom dia.


Me.

Quarta-feira, Novembro 26, 2008

Três - a festa


Linda como a ocasião pedia, Nani respirou fundo e entrou sozinha no grande salão da casa de Mitch. Na entrada, encontrou Bob que cumprimentou-a brincando:

- É muita primeira dama pra UM aniversariante só...

Nani respondeu com uma acotovelada discreta na cintura de Bob e uma risada, e já se esticou para pegar uma taça de champanhe da bandeja que passou ao seu lado.

- Não me faz rir que eu to nervosa.
- Relaxa! Tá vendo todos esses tubarões? Tudo casca. São um monte de carneirinhos morrendo de medo de perder o pedacinho de pasto que conseguiu.
- Não é possível!
- Bem vinda a Hollywood, meu bem...
Bob segurou Nani como se ela fosse pisar em alguma coisa.
- Cuidado! Não pisa nas bolinhas que é cocô de carneiro.
- Bob! Pára! - Nani tentou não soltar sua gargalhada poderosa
- Cadê o Mitch?
- Por aí. Ele te acha já já.
- Muita ex-namorada pelo salão?
- Hehe...pergunta pra ele. Já volto.

"Já volto" é aquela frase tipo "pois é". A gente usa quando quer se livrar de alguma coisa. "Pois é" serve para encerrar um assunto e garantir que não haverá um próximo. "Já volto" é um pouco mais complicado. Geralmente quer dizer: tem muito mais gente interessante aqui e eu ainda nem sei quem chegou, então eu vou te deixar sozinha, porque a gente nem tem tanta intimidade pra eu me ocupar de você muito tempo.
Ok...sem problemas. Se o "já volto" não viesse de Bob, ele receberia um "pois é" em tempo recorde.

Nani andou pelo salão calmamente, cumprimentando quem a cumprimentava, olhando cada detalhe da decoração e dos vestidos que passavam por ela. Quem diria que Mitch faria uma festa com cara de filme antigo? Black tie, orquestra ao vivo, pista de dança, velas...Não faria muito sentido fazer 50 anos numa rave, mas talvez um luau fosse mais a cara dele, por morar em frente ao mar e ter na garagem de casa mais pranchas de surf do que anos de vida.

Ao passar por um vaso enorme de rosas brancas, Nani tropeçou num cabo de energia que não deveria estar ali, torceu o pé com a taça de champagne na mão sem ter muito onde se apoiar. Se caísse cortaria a mão, com certeza. Por muito pouco ela não perdeu completamente o equilíbrio e se estatelou no meio da festa com todos os tubarões olhando...só o que evitou o vexame eminente foram as mãos de um homem que surgiram do nada para segurá-la pela cintura.

- Ai! Obrigada.
- Cuidado, menina...

Ele manteve as mãos na cintura de Nani que, encabulada, tocou-as tentando se livrar delas.
- Ta tudo bem, pode soltar.
- Você tá bem? Tem certeza? Não machucou o pé?

Ele teve a intenção de se abaixar para conferir o estado do pé dela, mas ela tocou seus ombros imediatamente para que se levantasse.
- Não! Ta tudo bem. Obrigada. Mesmo.

Ele se afastou andando de costas e olhando para ela.
- Se precisar que alguém te segure, é só chamar. - virou-se, deu mais alguns passos e voltou-se para ela outra vez - Foi um prazer...

Nani não conseguiu conter seu sorriso aberto e seu olhos brilhantes. Os olhos enormes e o sorriso irônico daquele homem de sotaque escocês fortíssimo não poderiam receber nada menor. Ela concordou com a cabeça numa reverência e continuou sua expedição pela festa. Mais alguns passos e encontrou Mitch.

- Meu deus...Você tá incrível...
- Ah! Eu pensei que fosse passar a noite abandonada.
- E te largar no meio destes leões famintos? Nunca! Você ta linda...
- Quem falando...A verdade é que nós dois juntos somos incríveis.
- Olha minha mãe chegando...

Nani olhou para a entrada do salão e viu aquela senhora gordinha toda enfeitada entrando, orgulhosa.
- Vai lá receber a rainha.
Ele respondeu sussurrando:
- Não conta pra ela, mas só tem um rainha aqui esta noite, e é você. Vem comigo.

...

No decorrer da festa Nani foi apresentada à mãe e aos irmãos de Mitch, aos seus amigos de infância, colegas de trabalho, diretores, produtores musicais, cantores, celebridades - sem a menor sombra de deslumbramento. Para ela, os efeitos do sucesso e a definição de celebridade não queriam dizer nada além de alguma visibilidade e um pouco mais de dinheiro no bolso. É claro que entre todas aquelas pessoas havia alguns de seu ídolos. É contraditório, mas sua simplicidade nunca deixou que ela visse outros seres humanos como superiores ou semi-deuses. Mesmo os ídolos. Ela mesma já havia recebido adjetivos como "genial, brilhante, melhor disso, melhor daquilo, surpreendente", e ainda julgava-se um mero ser humano falível igual a todos os outros. Além do que, Nani nunca se importou com as diferenças que os outros vêm entre nobres e plebeus, e o conceito de nobreza já havia se corrompido na metade do último século.

De tempos em tempos Nani se via sozinha enquanto Mitch recebia alguém. Desta vez, ela foi para o deck descansar os pés e os ouvidos, pensar em português um pouquinho, e só deixar o barulho do mar entrar. Já estava ali há algum tempo, quando uma voz a tirou do fundo do mar.

- Não caia daí.

Era o mesmo homem que a havia segurado quando torceu o pé.



continua abaixo...



**este texto é parte do romance inacabado "Três".

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Três - o deck


- Não caia daí.

Era o mesmo homem que a havia segurado quando torceu o pé. Ele perguntou:
- Então... além de ser uma das mulheres mais interessantes da festa, quem é você?

Ela sorriu um pouco tímida.
- Nani Gaya.
- Muito prazer, John McAlister.
- Eu sei.
- Isso é bom?
- Não é tão ruim... - ela respondeu.

John McAlister era o ator-revelação daquele ano. Depois de anos de teatro em sua terra natal, fez alguns filmes na Inglaterra e estourou em Hollywood como um dos maiores fenômenos das últimas décadas. Não sem razão. Ele era realmente um talento incrível. Aos 30 anos já havia ganho um Oscar e um Globo de Ouro por seu primeiro filme na América, e incontáveis indicações e muitos outros prêmios pela Europa. Não muito alto, mas dono de um corpo atlético, olhos indecentemente azuis e cabelos escuros, McAlister arrancava suspiros de toda uma geração.

- Então? O que você é do Mitch? Uma das....

John moveu a mão em círculos como quem quer generalizar alguma coisa. Imediatamente, Nani franziu as sobrancelhas e respondeu:
- Não. E você? É um dos....

E imitou o gesto dele, que soltou uma risada gutural.
- Não não, sem chance!
- Bom saber.

John fez uns trejeitos de bicha.
- Oi, eu sou um dos meninos do Mitch, mas ele não faz muito o meu tipo, sabe? Ele é grande demais!

Aquela brincadeira não caiu bem para Nani. "Como assim? Quem são "as meninas" do Mitch?" Mesmo assim, ela entrou na brincadeira.
- Isso causaria suicídio coletivo.
- Imagina... O Mitch não é gay. Nem eu. Depois, se eu fosse escolher um homem pra chamar de meu, seria alguém da minha estatura.
- Estatura profissional, claro.
- Não! Concorrênci